Entrevistado: Eloy Albuquerque de Oliveira Santos

Data de Nascimento: 24 de setembro de 1937

Função: atuou como locutor, já faleceu

Repórteres: Érika Morhy¹

Data: 06 de setembro de 1999

Principais assuntos da e ntrevista : Homens do rádio que se tornaram políticos .

Resumo :

Eloy Santos, radialista, se elegeu como deputado estadual com 22 mil votos, feito não conseguido por nenhum outro radialista. Eloy atribui sua eleição como deputado à seriedade com que ele sempre encarou a vida pública.

Eloy afirma que sua política no rádio, é ter posições firmes e que não é daqueles políticos que usam o mandato pra conquistar mais adiante coisas que não têm nada a ver com a vida pública ou política.

Quando Eloy se elegeu deputado com 22 mil votos estava fazendo um programa de televisão na TV Guajará. Ele fala ainda dos primeiros homens do rádio que tiveram cargos políticos, como Paulo Ronaldo, Oséas Silva, José Guilherme, o Jayme Bastos e Antonino Rocha.

Palavras-chave: Rádio Guajará, Rômulo Maiorana, rádio e política.

Coordenação Geral: Profª Drª Luciana Miranda Costa

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¹Aluna do curso de Comunicação Social da UFPA, habilitação jornalismo, em janeiro de 2000. Este texto é parte integrante da pesquisa “Os Setenta Anos de Rádio Em Belém”, coordenada pela Profª Drª Luciana Miranda Costa, do Departamento de Comunicação Social da UFPA, e também fez parte do TCC “Os homens de rádio na política local - Relatório Conclusivo”, defendido por Érika Morhy, em setembro de 1999. Orientadora: Profª Luciana M. Costa.

 

“Eloy Santos – locutor falecido ”

 

Então Eloy, tu és um fenômeno eleitoral porque como deputado tu tiveste 20 mil votos, ninguém chegou a 15 mil entre os radialistas...

O homem público tem que ter credibilidade. Eu atribuo a minha eleição sempre, para a Câmara Municipal de Belém e uma vez para deputado, eu atribuo exatamente à seriedade com que eu encaro a vida pública. É difícil você dizer que político é uma pessoa correta, uma pessoa direita. Eu sou um político correto, me orgulho muito disso. É difícil, as pessoas não acreditam de jeito nenhum, mas eu sou um político sério; é só levantar minha vida, na discussão de qualquer um eleitor, qualquer um cidadão, e levo muito a sério. Então, eu não tenho a menor dúvida de que é esse meu comportamento, essa minha maneira aberta, essa minha transparência com que eu desenvolvo meu mandato. Posso até não resolver determinados problemas da nossa cidade. E aí é que é, o vereador ele é um legislador, ele leva os problemas ao executivo, o prefeito, o executor é a prefeitura. Pelo menos, só de não me corromper, só em levar a coisa pública com seriedade, pra mim isso aí é tudo.

Então o senhor justifica com a honestidade. E com relação aos projetos, o senhor disse que nem tudo se pode resolver na sociedade, mas o senhor elaborou projetos?

O legislador nem sempre é um projetista. Nós temos aí políticos como o Ulisses Guimarães, que morreu e não deixou um projeto, nós temos o próprio Jarbas Passarinho, Paulo Brossarne, e tantos outros políticos nesse país. Eu sou mais tribuno, o Jarbas é um tribuno, o Paulo Brossarne é um tribuno. Eu tenho vários projetos, um, por exemplo, que já é lei, a ciclovia, e que o prefeito até hoje não implantou. Já existe, é uma lei, ele só não fez, não sei por que, não sei se não tem dinheiro, se não quer fazer porque a lei é minha, minha não, a lei é da Câmara Municipal, do povo de Belém. De modo que o legislador atua também nas comissões. Eu, por exemplo, faço parte de uma comissão, uma das mais importantes da Câmara, que é a Comissão de Justiça.

Então o senhor acha que é a sua atuação que faz diferença com relação aos outros colegas radialistas que ingressaram na política?

Eu não quero dizer que eles tivessem sido projetistas. É que eles foram perdendo a credibilidade, alguma coisa de errado ou no próprio rádio, através da sua falação diária, sensacionalismo muito, deve ter cometido algum erro que o povo foi acompanhando e chegou um momento e disse não.

O senhor utiliza o rádio como uma forma de manter a sua credibilidade?

Meu rádio é um rádio jornalístico, como você viu acabei de entrevistar a superintendente do DETRAN, sou um cara meio brigão no bom sentido. Agora mesmo, a Prefeitura teve que rever um convênio... Ia passar pra responsabilidade da Prefeitura o gerenciamento da energia pública. Se desse defeito numa lâmpada na tua rua, tu não podias mais te comunicar com a Rede Celpa, teria que ser com a Prefeitura. Entrevistei na sexta-feira passada aqui o presidente da Rede Celpa e com certeza foi a minha entrevista que fez com que o prefeito recuasse, ele já renovou o convênio.

Corte na fita

O senhor sempre esteve em partidos de direita. É uma afinidade ideológica ou é ocasional como foi ocasional seu ingresso na política?

Não é ocasional. Quando eu ingressei na vida pública, pra disputar eleição, só tinham dois partidos, a Arena e MDB, e nós távamos... Vivíamos um período que chamavam, até hoje de ditatorial. A minha opção teria que ser pela Arena.

Por que?

Porque eu estava servindo já ao governo Fernando Guilhon. Foi assim que eu entrei na vida pública. Fui chamado primeiro pra servir como assessor de imprensa do governo Fernando Guilhon, estava no período da revolução, ele foi um governador colocado no governo, não foi votado, não tinha eleição. E aí, eu entrei pelas mãos do doutor Guilhon, passei com a cobertura total do Jarbas Passarinho, que naquela altura era integrado ao governo militar, o governo revolucionário, foi por isso que eu entrei. Depois, fiquei na Arena, Arena foi extinta, trouxe nova sigla, mas eu continuei no partido, mesma ideologia.

Aí partir daí o senhor já se identifica com as diretrizes do partido?

É. Aí já comecei a fazer oposição ao MDB, naquela altura combatia de certa forma o período. Mas sempre fui um cara assim ideológico. Nunca fui esquerda, não dá. Até convivo de certa forma bem com alguns companheiros da esquerda, Raul Meireles é um cara que me dou muito bem com ele. Mas temos nossas divergências políticas.

O senhor nunca pensou em mudar de partido?

Não. Agora mesmo, em que você está me entrevistando eu tô sem partido. Tenho até dia 2 de outubro pra me filiar a um partido. Tem vários convites, mas já há um partido, tô pendendo mais para o PTB, que é um partido, de certa forma, de centro de direita, não sei direito.

E essa sua ideologia político-partidária, o senhor costuma defender no rádio, no microfone, as pessoas que representam o partido, ou então as idéias do partido... O senhor defende isso no rádio?

Eu defendo...

Tem uma política no rádio?

Tenho uma política no rádio, por exemplo, sou um homem público de posições firmes, não sou daquele político que usa o mandato pra conquistar mais adiante coisas que não têm nada a ver com a vida pública ou política, eu não faço isso.

Mas o senhor faz suas críticas a...

Sim, por exemplo. ... Eu sou um crítico não radical, me considero um crítico responsável. Por exemplo, se o governo a que eu estou servindo merecer críticas, aí eu faço, eu mostro ao governo que o governo tá errado, que não é por esse caminho. Eu quero que a coisa seja corrigida pelo bem do povo que eu represento.

Assim como também no microfone, o senhor também diz quais as suas ações: “eu estou defendendo tal projeto...”

Exatamente.

O senhor acha que isso é importante pra ratificar... Pro senhor se manter na vida política?

É importante porque, por exemplo, às vezes quando falo qualquer coisa com um companheiro político eles dizem: "É, mas tu tens o rádio". Ele diz logo: "Tu tens o rádio". Tenho o rádio, que é uma arma, foi através do rádio que cheguei onde cheguei. Eu não seria vereador, deputado, com certeza não seria, se não fosse o rádio, a força do rádio. Quando me elegi com 22 mil votos deputado, eu estava fazendo inclusive televisão. Eu fazia um programa... O Rômulo Maiorana tinha feito um negócio com a Guajará e ele me colocou: “Olha, tu vais fazer um programa de televisão”. Um horário cheio de deficiências técnicas, a Guajará passava por uma fase muito ruim. E eu me saí bem e me saí vitorioso nas urnas pela força da televisão.

Tu achas que a abertura política, na década de 80, ela de alguma forma favoreceu com que os radialistas ingressassem nas carreiras públicas?

Como assim?

Porque foi na década de 80, quando houve a democratização, foi a década em que mais os radialistas ingressaram tanto na Câmara quanto na Assembléia. O senhor acha que tem alguma coisa a ver com a abertura política?

De certa forma sim. Mas só que, por exemplo, o primeiro radialista a se tornar, vamos dizer, parlamentar, foi o... Os primeiros... foi o Paulo Ronaldo, Oséas Silva, José Guilherme, o Jayme Bastos, Antonino Rocha, falecido. E de lá pra cá, é assim: o camarada acha que é fácil atuar num programa de rádio hoje, ele se considera o tal, acha que vai disputar uma eleição e vai ganhar. E geralmente, eles ganham a primeira. Podia citar nomes aqui, mas por uma questão de ética não vou citar. Mas temos companheiros aqui que foram deputados e vereadores uma, duas vezes no máximo, companheiros nosso que foi deputado só uma vez, não ganhou mais nada. Isso com a força do rádio, a força da televisão. O Ratinho, por exemplo, que já foi deputado em São Paulo , se ele se candidatar aí o deputado federal, senador da república pelo Estado dele, ele vai ganhar. Por quê? O cara fala na televisão, “Ah, é o programa do Ratinho, ele fala a verdade”, e o povo ainda acredita em Papai Noel e na realidade tem muitos que se aproveitam do microfone pra chegar...

Aqui em Belém, década de 80, televisão e FM's já estavam no mercado emplacando, mas os radialistas, os homens do rádio AM, ainda ingressaram bastante nessa época. Por que isso, se o rádio (AM) supostamente já deveria estar com menos força?

Aí é que é. Você vê que agora a Liberal, por exemplo, o meu programa mudou de horário mais uma vez, estamos usando mais jornalismo porque AM... O que é o rádio FM? Rádio FM seria uma opção. Você ouvir a rádio FM, como tem aí... Pro Brasil afora é FM, geralmente transmite aquela programação com locução de FM. Hoje não, FM aqui de Belém critica, transmite jogo de futebol, tomando de certa forma o espaço da AM. Mas a rádio AM ainda tem muita força. Evidentemente com essa invasão de FM aí...

Diminuiu audiência?

Diminuiu de certa forma, prejudicou um pouco. Mas a AM sempre será uma rádio, de certa forma, ouvida porque é a informação. Nós temos repórter no Pronto Socorro, FM não tem. De repente acontece uma coisa, um acidente muito grave, um parente da pessoa tá no Pronto Socorro, como é que a família vai saber? Através da rádio. Às vezes tá ouvindo FM: “Ah, teve um acidente com teu pai, teu tio”, aí quando ele ver é no programa do Costa, por aí.

Tá bom, muito obrigada.