O Rádio e a Vida Cultural de Belém

Apesar de Belém conviver na época com graves problemas econômicos e sociais, a cidade conseguiu desenvolver uma cultura expressiva, que hoje é conhecida em todo o país. O Círio de Nazaré é um exemplo. A festa religiosa dos católicos reunia as diversas classes sociais de Belém. Nas noites do arraial, a praça em volta da Basílica era o ponto de encontro dos fiéis. Outra atração dos dias de festa era o auditório da Rádio Marajoara, localizado próximo à Basílica, que tinha uma programação especial para os quinze dias da festa do Círio. No Telégrafo Sem Fio, bairro pobre, carente de políticas públicas, acontecia também uma significativa manifestação religiosa. Era o Círio do Socorro, em homenagem a N. Sra. do Perpétuo Socorro, que reunia a população sofrida do bairro e das áreas próximas.
Por ocasião da Semana Santa, no bairro da Cremação, acontecia a malhação do Judas, uma tradição que se mantém até hoje. Em 1964, a igreja Católica só permitia as celebrações do Sábado de Aleluia a partir da meia-noite. Mas na Cremação os Judas continuavam a ser estraçalhados no sábado. Os testamentos deixados pelos Judas criticavam os políticos corruptos, os problemas econômicos da época, como a falta de comida e o contrabando, não escapando nem mesmo os vizinhos e moradores de outros bairros. Quando a confusão acontecia, a polícia apreendia os bonecos, prendendo aqueles que estivessem envolvidos.
Diferindo dos demais bairros, que se destacavam pelos costumes religiosos, os  bairros do Jurunas, Condor e Guamá eram conhecidos por manter a tradição dos bois bumbás, que na época junina saíam às ruas sempre acompanhados por homens, mulheres e crianças. A festa rompia a madrugada. Mas era durante o carnaval que toda a cidade se agitava, tendo como grandes promotoras de eventos as rádios. Nas ruas, carros davam lugar aos blocos de sujos e aos carros alegóricos. A Rádio Clube foi a precursora do carnaval de rua em Belém. A concentração dos foliões acontecia na Pedreira, Praça Brasil, Praça Justo Chermont, em frente ao palco-auditório montado pela Rádio Marajoara e na Praça da República, ponto tradicional escolhido pelos brincantes para a realização das batalhas de confete. Em 1963, a firma Jóias Laura Ltda promoveu em um coreto da Praça da República, o concurso da resistência carnavalesca. Para vencer, os dançarinos teriam que sambar durante 72 horas. De quatro em quatro horas, havia uma pausa de 15 minutos para exame médico, massagem e alimentação dos participantes. O concurso foi suspenso pelo secretário de saúde Pedro Valinoto.
Em 1964, a Rádio Difusora, em parceria com a Associação dos Cronistas Carnavalescos do Pará e com a firma Vespa Clube de Belém, realizaram na Praça Floriano Peixoto, no largo de São Braz, a Grande Ginkana Carnavalesca, uma corrida de vespas com obstáculos. O motoqueiro e sua acompanhante deveriam participar fantasiados. A orquestra do músico José Teixeira animou o ambiente, tocando os sucessos carnavalescos da época.
 As rádios, numa época em que a TV ainda estava engatinhando (a TV Marajoara foi inaugurada em 1961) e os jornais não eram acessíveis às classes populares, exerciam um papel importante na divulgação das manifestações culturais, criando também novos costumes. Na década de 60 era sucesso no Brasil os concursos de beleza, entre eles, o mais famoso era o Miss Brasil, uma promoção anual dos Diários e Emissoras Associados. Do concurso nacional saía a escolhida para participar do Miss Universo. A Rádio Marajoara sempre enviou repórteres para cobrir o concurso, que acontecia no Rio de Janeiro, no estádio do Maracanã. Uma brasileira, Yeda Vargas, a Miss Brasil 1963, conquistou no mesmo ano o título de Miss Universo. Em dezembro de 63, Yeda veio a Belém, numa promoção dos Diários e Emissoras Associados e empresas locais. Ela desfilou no auditório da Rádio Marajoara. Foi o grande acontecimento social da época. Influenciada pelo boom dos concursos de beleza, a Marajoara promoveu em setembro de 64 o concurso A Rainha dos Bairros, uma realização do programa de auditório Rádio Divertimento E-20, apresentado por Oséias Silva. A disputa acontecia aos domingos. A participação dos bairros era muito grande, cada um torcendo por sua candidata.
Passado o período das festas populares, o belenense que pertencia às classes média e alta costumava divertir-se  no terrace do Grande Hotel (hoje Hilton Hotel), onde era servido o tradicional chá às seis horas da tarde; freqüentando os clubes e  indo ao cinema. Na década de 60 havia em Belém cerca de 14 cinemas, o Cine Art, na Av. Senador Lemos; o Cine Independência e o Popular, na Av. independência; o Cine Paramazon, na Trav. Piedade; o Gurani, na Praça Felipe Patroni; o Cine Ópera, Iracema, Nazaré e o Moderno, na Praça Justo Chermont; o Olímpia, na Av. Presidente Vargas; o Paraíso, na Av. Pedro Miranda; Cinemas teatros Palácio, na Avenida Presidente Vargas e o Cinema São Luiz, na Av. Osvaldo Cruz. Em Belém, era forte o gosto pelo cinema, havendo nas rádios uma programação específica para o público da sétima arte. Nos bairros populares havia o cinema de rua, onde a população humilde assistia os filmes projetados em um telão ao ar livre. As sessões eram promovidas pelos próprios moradores do bairros. Com a inauguração da TV Marajora em .setembro de 1961, a procura pelo cinema vai diminuir.
              Nos fins de semana, a ilha de Mosqueiro era o lugar mais freqüentado pelos belenenses. Naquela época, o banho de mar não apresentava os riscos de contaminação, freqüentes em nossos dias. Levar lanche para comer na ilha era comum, visto que Mosqueiro ainda não dispunha de uma infra-estrutura suficiente para atender a demanda. O transporte para a ilha era feito por via aérea ou pelos navios Lauro Sodré, Lobo D ’Almada e Presidente Vargas. A rodovia que hoje liga Belém a Mosqueiro, na época ainda estava sendo construída.

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conteúdo:

O Rádio e a Vida Cultural de Belém

A primeira Rádio do Norte: retomando a história

Está entrando no ar a Rádio Marajoara

Liberal: A Experiência do Sul no Rádio do Extremo Norte

Inaugurada a Rádio Guajará

A Programação das Rádios Clube e Marajoara

A Programação da Guajará

A programação da Liberal: muita música e notícia

A época de ouro do rádio paraense: as radionovelas e os programas de auditório

Uma nova fase do rádio - Os radiojornais e a utilidade pública

Furos de Reportagem

A propaganda no Rádio

As Rádios e a Interferência do Poder

A influência do poder econômico

A influência do poder político

As Rádios e o regime militar

Bibliografia